Acredito em fadas, gnomos, gênios, sacis, reinos encantados, mundos paralelos e na responsabilidade da palavra.
Por reconhecer o poder que a palavra exerce sobre nós, tenho como critério a qualidade do conteúdo na escolha dos livros que comento. Faço um trabalho de garimpo, recolhendo pedras preciosas que identifico com meu olhar atento. Este é um trabalho independente, não mantenho vínculo de divulgação com editoras, livrarias ou escritores. Os livros indicados são adquiridos por mim e fazem parte do meu acervo pessoal, que compartilho.
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23 julho 2016

Os Meninos Verdes

Certa vez, os netos da vovó Coralina lhe pediram para contar a estória dos Meninos Verdes. Vovó deixa claro que não é uma estória, e sim um acontecido e sigiloso! Conta, mas só para eles!Tudo acontece na Casa Velha da Ponte, mais precisamente, na horta. Seu Vicente, que sempre cuidou de todas as plantações, foi quem encontrou os Meninos Verdes, quando um dia viu duas plantas muito diferentes, que quis jogar fora, mas vovó Coralina não deixou e pediu que observasse o que aconteceria com elas. Depois de alguns dias seu Vicente mostrou, todo espantado, a natureza daquelas plantas. Vovó viu! Eram menininhos verdes, bem pequeninos, gelatinosos, com dentes pontudos e unhas como garras de passarinho. Sete ao todo, quatro menininhas e três menininhos. E assim ficaram na casa, sendo muito bem cuidados. Os menininhos cresciam vitalizados e aos poucos vovó Coralina foi se vendo em apuros, tamanha a esperteza dos pequeninos. E não é que o acontecido chegou ao conhecimento da Primeira Dama? E é claro, depois ao Presidente da República? E é claro, ao corpo científico nacional e é claro, internacional, depois? Bem, o que era sigiloso, se tornou um estudo muito curioso, pois afinal, quem eram os Meninos Verdes? Duendes? Gênios Verdes? Ou simplesmente Meninos Verdes?
Cora Coralina, chama este conto de estória, mas eu digo que é uma história, porque acredito que Meninos Verdes existem e se você tiver uma horta ou jardim, quem sabe pode tê-los bem perto de você!
O texto é de Cora Coralina e as ilustrações de Cláudia Scatamacchia. O livro é lindo demais. Um encanto, como tudo de Cora Coralina!
 
Ilustração
 

18 julho 2016

O Rei Mocho

O Rei Mocho (conto originário dos sena, etnia do centro de Moçambique) é o primeiro volume de uma coletânea de dez volumes intitulada Contos de Moçambique, resultado de um projeto de colaboração entre a Escola Portuguesa de Moçambique e a Fundació Contes pel Món, de Barcelona, Espanha. Em 2016 temos a primeira edição brasileira desta coletânea que começa com este inspirador conto, a nos mostrar um reino de pássaros ao ver sua harmonia modificada por uma intervenção vinda de uma dedução, que faz acreditar haver má fé na consagração de mocho como rei dos pássaros, empossado para defender e manter a segurança da comunidade por ter chifres, mas que de fato eram penas em forma de chifres. Aqui o questionamento se faz no sentido da intervenção ou seja, levanta a dúvida do quanto é benéfico intervir com julgamento numa situação que, de certa forma corre bem. Faz indagar até que ponto nosso conceito de verdade pode provocar danos, pois nem sempre o que imaginamos ser um dano, pode de fato ser, e quando interferimos baseados em nossa visão podemos causar um desequilíbrio, muitas vezes de difícil solução. Ungulani Ba Ka Khosa, nome tsonga ( grupo étnico do sul de Moçambique) de Francisco Esaú Cossa, que reconta este conto introduzindo a figura humana como elemento a causar o desequilíbrio no reino dos pássaros, mesmo não existindo na forma original, por perceber o Homem como responsável nos desequilíbrios no ambiente ao seu redor. Destaco as palavras do autor ao explicar seus sentimentos ao ler o conto O Rei Mocho, por considerá-las de grande importância na reflexão que esta obra pode causar: "...o que mais me afetou foi esse saber secular demonstrado na história de que o crime moral, étnico, é tão ou mais cruel como os outros crimes. E a reparação desses males, seguindo a moral da história, valem por uma vida inteira. É uma lição que os tempos modernos tendem a anular." E ao se referir à intervenção arbitrária, ele continua dizendo em outro trecho: "...Imaginemos que o mocho tinha certeza de que os tufos de penas que alcandoravam na cabeça eram chifres à dimensão da sua espécie, e que outros pássaros tinham deste fato consciência. Mas o homem, querendo impor a dita verdade, dita outras regras..." Para completar a magnitude deste livro, as ilustrações são realizadas com pinturas em técnica de batique, de colorido fantástico, pelo artista moçambicano Americo Mavale. Fica pra você esta indicação, que me causou grande admiração. Eu ficarei no aguardo dos outros volumes e quando acontecerem trarei para mostrar-lhe com satisfação e alegria.

Ilustração



15 julho 2016

O Catador de Pensamentos

Você conhece o Sr. Rabuja? Se não conhece precisa conhecer! Ele é um homem já idoso que faz algo muito especial. É um catador de pensamentos. Acha estranho? Pode parecer, mas é admirável seu ofício. Toda manhã, sempre as seis e meia, Sr. Rabuja passa pelas ruas da cidade onde mora catando pensamentos. Ele pode ouví-los, estejam onde estiverem, e quando os percebe, através de um suave assobio os atrai para sua mochila. É assim o dia inteiro. Depois os leva para casa e lá os separa por letras. Sim, letras! Prateleira A para pensamentos amáveis, agressivos.... Na prateleira B ficam os pensamentos bobos, bondosos.... Na C organiza os corajosos, caóticos....e assim até Z. E o mais bonito de tudo isso é que logo depois que descansa, planta todos esses pensamentos em canteiros de seu jardim e bem cedinho, um pouco antes do Sol surgir, Sr. Rabuja acorda e corre para ver as lindas flores que brotam, de todas as cores e formas. Tudo é encantador até que estas flores se transformam em partículas que sobem pelo ar emanando suaves sons! Não é fantástico! E estes pedacinhos de flores/pensamento entram pelas frestas das casas enquanto as pessoas ainda dormem, se depositam em suas testas estimulando sonhos e novos pensamentos.
A ideia de Monika Feth em escrever este texto foi demais feliz. Ela nos leva para um mundo que muitas vezes não nos damos conta, mas que está o tempo todo em nós e a nossa volta: os pensamentos que criamos, que tem vida, muito mais do que podemos imaginar! E com as ilustrações de Antoni Boratynski, tudo se torna deslumbrante.
Este é um livro que me fascinou logo na primeira leitura e estou certa de que você também gostará, especialmente se aprecia temas profundos e multifacetados, expostos de maneira inteligente e sensível.

sr.  Rabuja chama os pensamentos

 

Um pouco de mim

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Brasileira, nascida em São Paulo em agosto de 1956. SRC, formada em psicologia, blogueira, escritora, taróloga, artesã, membro da Academia Popular de Letras (Movimento Literário da Biblioteca Municipal Paul Harris de São Caetano do Sul). Mantive, de 2006 a 2014 coluna sobre Tarô no jornal, "Mais Notícias" e na revista "Mais Conteúdo" ambos de Ribeirão Pires. Por mais de 4 anos escrevi para o "Jornal Paulistano" da Zona Leste de São Paulo, e Jornal "Giro Rápido". Colaborei no jornal "abc Mulher" de São Bernardo do Campo. Sou articulista do jornal "Enfim", de São Caetano do Sul, desde 2009. Autora do livro infanto-juvenil "Pimenta do Reino", lançado em 2008. Participei da Antologia "de Maria a José", lançado em 2012. Em 2004 produzi e apresentei o programa "Abra a Cabeça", via internet, na It's TV. Participo de programas de Rádio e TV em entrevistas desde 1993. Realizo contação de histórias e palestras em escolas, empresas e residências. Desde abril/2017 atuo como voluntária contando histórias para população que apresenta deficiência múltipla, síndromes raras (AME) e surdocegueira na ADEFAV - centro de recursos em deficiência múltipla, surdocegueira e deficiência visual.